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domingo, dezembro 28, 2008

Os achados musicais do ano

Todo mundo faz listas no final do ano. Eu sempre brinco com isso, sempre digo coisas absurdas como resolucões de um ano que se aproxima, porque eu sei que o que não foi planejado sempre é mais divertido, gostoso, prazeroso... enfim.
Esse ano foi um ano meio descabido, fazendo uma análise geral e bem por cima, mas foi um ano interessante em termos de pesquisa musical. Entendam: Eu não sou uma colunista musical, e acho que nunca vou ser, mas achei musiquinhas bem interessantes. Algumas eu já discotequei na brincadeira, por isso fiz um lista dos 'achados musicais de 2008' pra dividir com quem ainda passa por aqui.
Vamos lá:


1. The Ting Tings ( Manchester - UK)


Conheci o grupo no final do ano passado, através de um DJ querido de Londres. Eu adoooro dançar a música " thats not my name".Umas pessoinhas de JP gostaram quando eu toquei. Música pra se jogar e dançar no maior estilo Mica, sem se preocupar com a letra. Adoro quase todas as músicas deles.

2. Gabo Ferro ( Argentina - AR)

Gente, nao é porque ele é bonito( ele é lindo!), mas um cantor que faz um cd com o nome "Canciones que um hombre no debería cantar" merece um prêmio! Eu tenho um tesão por Argentina ( ano que vem vou estar lá!) e só o fato dele ser de lá, já conta ponto. Mas ele canta bem e também toca em uma banda de rock. Tem uma música dele chamada “El amigo de mi padre”, que conta o caso do pai com o melhor amigo.

3. Little Joy ( Eu achava que era do Brasil)


Nao é só porque Moretti é meu marido e eu o amo muito que eu gosto dessa banda. Little Joy é super gostosinho de escutar e tem um lance meio retrô no som. Foi uma achado surpresa, até pq EU ODEIO LOS HERMANOS, mas gostei demais do som. Dia 28 de january vou me jogar e bater cabelo com eles.

4. Lidya Mendonza(Mexico)

Ela é braba como uma paraibana, mas é mexicana. A melhor música dela, pra mim, é "Mal Hombre", que ela diz “Mal hombre/ Tan ruin de su alma que no tiene nombre”. íiiiiuuu!




5. Baoba Stereo Clube

Pra quem gosta de musica instrumental ( eu adoro), tem esse grupo muito legal que conheci no YouTube. O clipe é muito bom, chamado "Joanita". Olha só:


2009 vai ser um ano mágico.

domingo, dezembro 21, 2008

Verão

cheiro de sexo, pele de orvalho
eu te atravesso
                               de junhamaio.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Carnaval à granel

Quando eu te vi
aquela mágica dos filmes aconteceu
entre serpentinas e confetes
minha fantasia era maior que eu

No meio de todo burburinho
das histórias e pessoas contentes
então você me apareceu

Meu vestido de lantejoulas vermelhas
meus enfeites à granel
pareceram todos colocados
para ir ao encontro teu

E dentre todas aquelas gentes
eu não conseguiria enxergar mais nada
a não ser aquela distância enorme
que existia entre você e meu


* texto inspirado num sonho com minha fantasia preferida.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Crianças

Eu me lembro de poucas coisas de quando eu era criança. Queria lembrar mais, mas a essa hora já é um pouco tarde, acho eu. Uma das poucas coisas que me lembro são relacionadas à minha vó materna. Vovó me levava na feira pra eu escolhesse as pinhas e me deixava comer todas no caminho de volta pra casa. Ela também era muito habilidosa em matar galinhas e em me ensinar tabuada. Nesta última, ela sempre me soprava baixinho o resultado correto, logo depois, escutava minha mãe aos berros dizendo que tinha escutado tudo.
Quanto vovó deixou essa vida sem graça, eu era muito pequena. Não me deixaram acompanhar nem saber pra que eu não tivesse pesadelos. Mas eles não sabiam que eu já sabia de tudo.
Não tive pesadelos. Só achei uma pena ela não ir comigo comprar pinhas nos dias seguintes.
Os adultos não sabem a clareza de idéias que as crianças tem.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Aprendendo a ser grandinha

Acorde cedo. Alongue os músculos. Olha a caimbra. Passe hidratante nos cotovelos. Passe hidratante no rosto, no corpo, nas mãos. Passe protetor com hidratante no rosto. Coma fruta. Vá trabalhar. Leve guarda-chuva. Não saia sem casaco. Não fique no MSN. Faça as suas contas. Se estresse. Não chore.Economize no supermercado. Compre verduras. Esqueça pizza. Não compre sorvete.Hora do lanche, café expresso. Sem açucar. Esqueça o cigarro. Trident de menta. Coma fruta antes de dormir. Durma cedo.
Siga tudo à risca.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Desenhando o barulho de elevadores


Ilustra do ilustre Pozzobon -clica pra ver maior.




Eu nunca fechei as portas.
É que aqui dentro só chove quando eu quero.
As tuas portas são como um termômetro e a previsão do tempo, e a posição dos planetas na hora dos nascimentos.
Quando elas se abrem faz sol, calor e poesia.
Perna, perna, mãos, braços, abraços, minhas mãos em sua porta.
É que quando você aparece o sol fica aqui dentro.
Só sei de tudo quando você sorri.
Não gosto de chuva. Elas amolecem as portas do meu apartamento.
E seu barulho, do seu sorriso quando estou entre sua porta, não muda nada e transforma. Fica aqui e evolui.
É que você ocupa a memória.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Só de leve

Podia ser pior.
Sempre me dizem isso. As coisas comigo sempre parecem um furacão e nada acontece simplesmente por acontecer.Podia simplesmente ser um " vai embora" e tu acabava indo sem perguntar o motivo.
Achei um bilhete. E aí lembrei que detesto teu jeito de fazer piadas das minhas reclamações, porque sempre acho engraçado e não consigo segurar meu riso. Odeio dizer que detesto, porque acabo gostando. Sou do contra, tu não sabe?
Mesmo quando eu reclamo que a cama ta pequena pra nós dois, tu sabe exatamente que o que eu queria mesmo era que tu me agarrasse mais, daquele jeito que teu nariz se encaixa no meu pescoço e teus braços enlaçam minha cintura.
Tu sabe também que quando eu reclamo da tua falta de consideração com as minhas trapalhadas, é porque sabe que eu adoro o jeito da sua risada, fechando o olho e mostrando os dentes, se segurando pra não fazer som algum enquanto isso.
Odeio quanto eu tomo vinho e fico sentimental. Mas também fico querendo "meio" que te comer na frente de todo mundo. De qualquer forma, hoje eu nem bebi vinho. Nem te comi também. E esqueça essa parada por telefone, isso não me anima e me dá preguiça. Eu não sei fingir.
Mas só hoje eu queria fingir que tudo vai bem, que não ligo pros seus bilhetes, nem pro motivo pelo qual você me deixou saudosa.
Fico imaginando que tu podia ta rindo de tudo isso, e eu teria raiva mais uma vez porque eu não consigo ficar com raiva. E teria raiva da raiva de não conseguir parar de pensar em nós dois.

quarta-feira, outubro 08, 2008

margaridas

Dentro de um círculo as margaridas iam se formando.
Era só olhar pras mãos dela, que todas elas apareciam a esmo, automaticamente. Era assim que ela desprendia-se de todo o nervosismo.
Como era irritante quando ele sabia, só de olhar, o que ela estava pensando.
Irritante mesmo era tentar esconder o sorriso e o brilho no olho quando ele aparecia em sua frente.
“Me deixa”. Ela dizia, da boca pra fora, e num tom a menos da fala habitual.
“É isso que você quer?”
Dentro de um círculo, ela desenhava margaridas.

terça-feira, setembro 23, 2008

sexta-feira, julho 11, 2008

Transbordando

Adoro amores que transbordam. Amores que se derramam pelo orkut, pelos blogs, pelos flickrs e demais locais virtuais que a gente se espalha. São amores que de tanto emergir, transbordam. São declarações que têm que ser ditas senão doi a garganta, doi o peito, doi o não dizer.
Eu acredito em amores elásticos, daqueles que meses depois ainda é o mesmo, senão maior. Acho isso a maior prova do que se é amor: aquele sentimento que dura e que não há distância que separe. Acho sim que o amor é uma coisa brega, que pode ser feito em noivados, que pode acontecer depois de meses de separação e acredito ainda num amor pra sempre, daqueles que precise de papel, de aliança no dedo e de esperança no peito.
Coisas "de repente" não são do meu agrado, porque eu quero fazer parte de uma história longa.
Posso ter cuidado, mas assim eu me preservo e preservo o que é dele em mim.
E ter a certeza de que fiz o certo, pra mim não tem preço.

quinta-feira, junho 05, 2008

Tão tocando sanfona pra mim

Eu nasci em Campina Grande, lá naquela terra de forró, que hoje também é terra de universitários.
Acho que todo mundo brinca com a minha terra e por eu ser de lá, mas isso nunca me incomodou. E sei dançar forró muito bem. Aliás, aprendi pequenininha, quando minha mãe ainda morava na casa do meu avô Roldão, em bodocongó,lá em Campina.
Vovô tinha uma sanfona e um violão. Com a sanfona a gente sempre brincava, apertava os teclados, desafinava e ele nunca reclamou. Até porque ele nunca usava a sanfona, servia apenas de brinquedo pra gente. Ele não cantava, não reclamava, não dizia se tava triste, mas sempre se alegrava com presença da gente.
Um dia vovô me viu dançando com a vassoura e pegou a sanfona pra cantar uma música de Luís Gonzaga. Foi a única vez que o vi pegando na sanfona. E hoje ele deve cantar Luiz Gonzaga e deve ta tocando sanfona, em paz, do mesmo jeito que a notícia chegou pra mim ao acordar.

Vovô, toca Chuculateria pra mim?
Te amo, vá em paz.

terça-feira, abril 08, 2008

Meu colchão

Nessa hora de cuidar do futuro e dos milhares de documentos e vistos, andei revirando, distribuindo e pensando em vender minhas coisas todas de uma vida.
São coisas de uma vida porque as tenho desde o meu primeiro apartamento, e, posso dizer que eu tinha tudo o que eu precisava dentro do meu muquifinho.
E fazendo uma das milhares de listas pra distribuição brasileira Herbert Richards, eu parei sentada em frente ao meu colchão: Esse objeto de espuma altamente inflamável foi o que me trouxe a maior das nostalgias já vividas na face da terra.
O meu colchão foi a primeira coisa do meu primeiro apartamento. E foi a única coisa única que tenho até hoje, depois de 5 anos morando só. Foram amigos, namorados, namoridos, família, gente que nunca vi, todos estavam ali, sentados ou deitados no meu colchão.
No início o colchão ficava no chão, pra que qualquer um vinhesse e sentasse enquanto se jogava conversa fora, depois migrou pro quarto e ficava indo e vindo de acordo com a necessidade.
No meu colchão tem marcas de vinho, de comida, de ferro quente, de coração despedaçado, de palavras tristes, de sorrisos eternos, de uma mente alcoolica sem lembranças, de um abraço terno, de fins, de recomeços, de uma vida sozinha porém cheia de esperança e da idéia de não desistir nunca.
Do meu colchão eu tive as idéias mais loucas, as juras de amor mais eternas, o roteiro do filme da minha vida, doação total e completa, as tristezas mais recolhidas e as divididas com uma, duas ou mais pessoas. Tive também a vontade de ter filhos e a de ficar sozinha. Tive a vontade de não voltar mais e de permanecer pra sempre, até a fome apertar ou o entregador de comida chegar.
E agora olho pro meu colchão e a vontade é de levá-lo comigo no avião, amarrado em cima com uma corda, como fazem os retirantes lá da minha terra. Ou de deixar guardado pra num dia desses de ter saudade de tudo e de nada, voltar e ficar sentada olhando pra ele como se um filme bonito de época (maravilhoso)passasse.
Mas como todos os filmes acabam, eu tenho que ir e recomeçar tudo outra vez.
E já começo a ter saudade de tudo isso.

terça-feira, abril 01, 2008

quase e sem querer

Quase sem querer os planos se abarrotam, se espremem, mas com força vão um passo além. Como diria o poeta: um passo à frente e você já se esqueceu de tudo o que tinha atrás. Quase sem querer eu me vejo falando e sorrindo de coisas que não teriam graça há um tempinho.
"Mas essa é a graça toda de uma vida, Lord Byron".
Mesmo que o passo atrás seja mais pra trás que pra cá, há tempos. Mesmo que as traças já nem aguentem mais comer aquele restondôtè.
Veja bem: isso não é rima, é solução: eu mesma tenho certeza que não conheço ninguém. É certo que isso não valia para um tempo atrás, mas quando coisas que você esperava por consideração são desconsideradas por outrem, o melhor a fazer é rir dessa coisa toda.
- Ei, não queira me conhecer. Eu só quero estar ao seu lado, beibe.

quinta-feira, março 20, 2008

menina

pra que tanta dor se ainda há sorriso dentro e por dentro? pra que tanta mágoa, se a gente ainda bate forte. pra que tentar retomar, se nada mais será como antes? pra que?
pra que ficar imaginando coisas onde coisa alguma cresce? pra que dissimular um sorriso, se o amarelo aparece?
pra que tentar, tentar, tentar
se a vida lá fora é mais um oceano de opções? se ainda não acabou o que era doce?
sorri menina querida, olha ao teu lado: tudo vai passar
sorri menina doce, o teu sorriso ainda vai poder iluminar uma cidade de sombras.
sorri menina,que a gente aqui fica pra mostrar que pra sempre vamos estar.
e eles nunca vão saber o que contido esta. no teu peito.

domingo, março 16, 2008

as coisas dentro dos sonhos

As coisas me escorrem pelos dedos. Mãos, pernas, cabeça, pensamento, tudo escorre pra um bueiro que nem sei mesmo onde vai chegar. Sei bem que esse lugar esta cheio de palavras velhas, que não há cabimento mais para serem ditas. Palavras que já eram, mesmo fazendo meu coração ficar às voltas e acordar num sopapo, como se tivesse acordado no meio da noite assustada, depois de um pesadelo. E se eu tivesse dito tudo o que eu queria? Se eu tivesse brigado pelo que eu queria? Talvez o bueiro não estaria tão cheio de palavras velhas, talvez o descompasso que passa aqui dentro, seria menos desorganizado. Talvez. Mas, na maioria das vezes, o momento já era, a hora acabou, o sorvete derreteu, e as coisas escorrem pelos dedos.
Por isso mesmo minha carne agora é translúcida e minhas palavras não merecem mais réguas para meias verdades. E, se te incomoda o fato d'eu ser assim, eu não me importo. Prefiro ser assim, explícita, a sorrir para quem não me quer bem. E prefiro ficar bem a imaginar minha vida como um sonho dentro de um sonho, apenas.

sexta-feira, março 14, 2008

Coisa tua

Era tudo que eu queria escrever agora, mas alice ruiz o fez primeiro. e bem melhor que eu, claro.

(feliz dia da poesia!)

assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar,
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você
parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido,
mas ia viver um dia
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido
agora não tem mais jeito,
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei alguma coisa tua

terça-feira, março 04, 2008

Técnica Zen

no grande jardim
balançam violetas
asas de borboleta

O sol

Era um dia chuvoso, cinza e sem graça que me fazia perambular de uma lado a outro, sem alguma coisa que fizesse os pensamentos fincarem os pés na órbita do meu apartamento. Relia, trelia e-mails, cartas, postais, fotos,etc e etc. Provei todas as roupas, botei meu cachecol vermelho-paixão com meu tênis roxo-quero-mais. Até meu pega rapaz tava meio gay. Então tentei fazer aquela posição dificílima que aprendi com a mestra zen da Yoga acrobática, e, mesmo assim, o silêncio- uma forma de barulho bem específico da meditação - era qualquer coisa, menos silêncio.
"Quer saber? chega!" - gritei pras minhas quatro paredes de cor amarelo-derretido-feito-manteiga, e saí.
Afinal, até o vento muda de ar. E mudei. E enquanto eu pensava o que faltava nesse dia cinza e chuvoso, a porta se abriu e ele me sorriu.
E enfim, chegou meu sol.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

[intervalo]

Passei a manhã toda lembrando de você. Lembrei que enquanto eu falava e você ria, eu perguntava, sem graça: "você está rindo de mim?", e você respondia: "não, estou rindo com você, eu nasci pra rir junto com você".

E eu que sou tão independente, aprendi a dizer "preciso de você".

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Tea for two hearts

Lorena Travassos e Raquel Medeiros

Num desses dias de lembrar, andei tentando separar em caixas as coisas que andaram entulhadas por toda uma vida. Caixas grandes, caixas pequenas, caixas de inutilezas, caixa de franquezas... Pois ser fraca não me é permitido, mesmo eu querendo me debulhar em lágrimas, mesmo eu me mostrando ao avesso e me contorcendo aos olhos de todos, ainda há quem diga que eu não sou dada a essas coisas.É que nunca fui escandalosa. Sou das que chora baixinho, no escuro e na solidão do quarto. Soluços abafados num travesseiro com cheiro de vazio.

Quando olho aquelas caixas - as minhas caixas, as caixas de mim – tento classificar as coisas que acumulei no meio do caminho. É preciso rasgar umas, queimar outras (para que não se juntem nunca!), e, ainda assim, há tantas outras que não sei o que fazer, em que caixa colocar.

Separar amor da amizade, separar um amor com amizade, mas como separar um amor que se tornou saudade? Como separar um amor, que nunca o foi na realidade?

Nessas horas eu queria uma caixa cheia de traças famintas.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

entre parênteses

Há duas medidas, ter e não ter.
Mas as duas taças que eu seguro estão cheias, esperando o tilintar que ainda ecoa dentro do peito.
Dizem que o vazio esta cheio de ar, mas o meu vazio transborda a ponto de completar o lado cheio de um peito saudoso.
Tem palavras que não conseguirei traduzir, pois ainda não sei como se diz visceral de uma forma tão visceral como se apresenta.
Tem cartas que nem sempre vou mandar. E é melhor assim, porque sempre haverão coisas que melhor serão ditas através de um olhar.
E podem até quebrar meus planos em pequenos cacos, que eu vou ter superbond pra deixar copiosamente à mostra os meus ombros largos.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Maria Flor no primeiro dia de escola

Maria Flor nasceu pequenininha e sem chorar uma só palavra. Recebeu esse nome da sua mãe para que a doçura de um mundo perdido se encontrasse nela. Tinha dedos pequenos e o hábito de falar só o necessário. É uma menina tímida que tem medo do mundo e por isso, ao ir à escola, apertava bem os cadernos contra o peito pra que ninguém visse - ou ouvisse - as fortes palpitações dela. Roía as unhas na hora do intervalo, o que parecia mais um intervalo sem fim de ruídos; de conversas em suas costas, de músicas e cordas de pular das brincadeiras que ela ainda não participava. Maria Flor roía as unhas, arrumava a farda e segurava o peito, pra tentar sossegar a fera lá dentro, esperando a sua hora aqui fora.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Anyway...

Eu abro um livro novo e parece que já conheço toda a história. As pessoas conversam comigo e eu quase completo as suas frases. As surpresas, que deveriam ser supresas, chegam em tom monótono e monocromático. Toda a rua que passo tem histórias que eu já ouvi uma, duas, três vezes. Até raspar a cabeça já parece uma coisa feita por mim em outra hora. E é assim que a vida vai passando: as mesmas pessoas, as mesmas fofocas, as mesmas babaquices e problemas. Enquanto fico aqui esperando por novos problemas, só que em outro país e com um sorriso no rosto, achei em um livro antigo mensagens que vieram a calhar:

" Debaixo da aparente estupidez, existe a estupidez verdadeira"
e
" ... ele foi o mais raro exemplo dos que dizem o que pensam e fazem o que dizem."

Galeano sabe o que diz.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

entre as linhas

... eu só queria dizer que eu ainda gosto daquela nossa cena onde as pernas eram quatro, e eram suadas, entrelaçadas, só não mais cínicas do que o imaginado, pois não era um filme de Buñel.

textos embaixo do tapete

Beth andou pensando tanto, que tinha textos inteiros jogados embaixo do tapete. "Esse negócio de pensar deve me levar em algum canto" - ela falava alto e isso ecoavada dentro dela. Não que Beth seja vazia,o contrário disso: ela era cheia de palavras bonitas, porém, palavras guardadas, esperando a hora certa que deveria estar combinada com um sorvete de abacaxi e a lua no quarto crescente, meio minguante.
Quando menina, juntava tudo numa caixinha, porém agora, até a fumaça do seu cigarro exalava poesia. Até as curvas da sua silhueta eram haikais. Até o seu silêncio eram sonetos eternos de Fernando Pessoa, e às vezes, até letras cortantes de Ana Cristina César.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Green eyes

Queria dizer no teu ouvido que nada mudou, tá tudo até meio chato, meio sem graça e sem sal. De fato, só sei que era só olhar de lado, que ia te ver sorrindo, elogiando os meus sapatos sem cadarços e meu olhar curioso que se espalhava por cada lado, com aquela fome de ver tudo ao mesmo tempo e a cada metro quadrado de cada passo. Queria dizer que só você entende o meu silêncio, tanto, que me abraça sem perguntar, sem reclamar, sem achar coisas que nem eu poderia imaginar. Queria dizer que cada dia é um motivo pra lembrar, cada foto uma saudade pra guardar e que meu sorriso, quando se abre do nada, foi por lembrar que você estaria atento, esperando minha próxima pergunta ou silêncio, se estivesse nesse lugar. Queria dizer que estou voltando e além dos teus olhos verdes, do abraço-calmante, do ouvido atento, do sorriso sempre presente, das conversas sobre o céu-mar-e-ar, um dos motivos, eu queria dizer, é você.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Puls- ando

Quando Antônio chega, meu coração quase quer se mostrar à boca, assim, entregue, bem presente e dizendo, a cada pulsação: sou seu, sou seu, sou seu.
Toda poesia, pintura e vestido novo que eu compre pra usar e mostrar a cada encontro é como se eu quisesse conquistar mais, ser cada vez mais, entregar cada vez mais pra ele cuidar, cuidar, cuidar.
Antônio é a energia e a falta dela, a presença e total ausência, e isso me encanta, pois ser tantas coisas em uma só é uma coisa que só Antônio consegue. E me ter do jeito que ele tem, na hora que ele tem, ninguém mais teria.
Quanto Antônio vai embora, meu estômago torna-se um grande nó e a minha boca, que antes era coberta de sua quente saliva, seca quase que instantaneamente, procurando um meio termo entre a ida e a volta e tirando novamente o coração do seu eixo, que agora pulsa: volta, volta, volta.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Como um quebra-cabeça

Tudo começa como um grande quebra-cabeça: juntam-se todas as peças, trocam-se as peças perdidas e nos preparamos pras que irão ser perdidas mais na frente. Tudo faz parte, sejam peças pequenas, peças que não fazem sentindo e outras que são desnecessárias, pra montar uma tela bonita.
Essas peças desnecessárias são as que mais nos aborrecem, porque, quando você pensa que está tudo certo, elas aparecem, e, mesmo que você se esforce para encaixá-las em algum lugar bonito, você descobre que na verdade, elas não servem nem para ilustrar as firulas da linda paisagem que se procura.
Mas, quando você para um pouco pra pensar, e se toca que você tem peças lindas e que ainda vai conhecer mais sobre essas peças e de sua grandeza, nada mais importa nesse atordoado de pequenas peças desnecessárias.
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