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terça-feira, setembro 26, 2006

Sinceramente

Fica aqui e te dou a lua, a rua, as estrelas, meu sorriso, minha alegria, minha vida, meus abraços, meu café, meu afago, meu prato, minha comida, meus pensamentos, meu corpo, minhas idéias mais loucas, minhas unhas nas suas costas, meu vinho, minhas reclamações, minha alergia, minha conta de água, minhas dores de cabeça, minha rotina, minhas olheiras, minha barriga flácida, meu filho, minha celulite, meu cansaço, minha TPM, meus cabelos brancos, minha osteoporose, meu reumatismo, minha caduquice, minha menopausa, mas fica aqui, comigo.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Crise dos 30 {Pensamentos da mulher paranóica moderna}

Ontem eu estava na casa dos vinte.
Com vinte e nove, enxuta.
Podia tomar cervejas com as amigas, dançar até tarde na boite, fazia tudo.
Era um arraso de mulher, casada e com filho.
E ainda na casa dos vinte.
Podia dormir tarde e acordar cedo...
A noite era uma criança! E minha criança tinha babá.
Hoje tomo leite pra osteoporose, vou a praia com protetor fator solar 80, tomo alho em jejum...
E nada de fio-dental na praia.
Nada.
Mas também tem os prós da idade!
Fico olhando pros meus amigos e me sinto uma mulher. É isso mesmo! Uma mulher com M maiúsculo!
Madura!
Uma velha...
Tenho que passar exfoliante, hidratante, humectante, desinfetante, e essas coisas todas na cara antes de dormir.
E ainda tenho que agüentar meu marido babando na frente de uma menina, na casa dos vinte...
Pensei que ia ser mais fácil, afinal, sou muito segura, tenho emprego, um filho lindo pra criar e um marido... Tarado por menina na casa dos vinte...
Mas eu também já tive meu tempo de glória!
Eu saia por aí e todos os meninos do meu bairro ficavam babando quando eu passava.
Era uma festa!
Parecia uma alcatéia fervorosa de prazer atrás da lobona aqui.
E é isso que eu sou agora...
uma loba... Na idade da loba... E com pêlos de loba nas pernas.
Horrível!
E pior ainda está a minha cabeça!
Um horror!
Não estou velha e não aceito essa afirmação!
Sou uma Mulher, assim mesmo com M maiúsculo. M de moderna, de maravilhosa e de modesta.
Posso fazer tudo o que eu fazia na casa dos vinte e muito mais.
Posso até mudar de marido.
Hummm... até que não era uma má idéia...
Troco por um de vinte pra seguir as tendências e me sentir mais nova.
Quem nem Demi Moore, aquele espetáculo de mulher, e mais velha que eu!
Já estou me sentindo ótima...
Vou me livrar do meu marido...
E se eu não conseguir um broto de 20? E se eu ficar sozinha? E se ninguém me quiser mais na vida?
Já passei da casa dos vinte, não sou mais aquele filet mignon de antes, né?
E se me separar com quem fica o Júnior?
Lógico que ele vai querer ficar com o pai.
Só assim ele vai poder fazer tudo que quiser, porque o pai vai estar roncando, depois de tomar uma caixa de cerveja assistindo a um jogo do Paysandu contra... contra...ah! esquece!
Nunca entendi de futebol mesmo.
Nem entendi porque me casei com Josivaldo.
E nem lembro.
Isso é a memória! Ela está péssima!
Tenho que ingerir vitamina K, L e M, no mínimo!
Deve ter no peixe, eu vi em algum lugar, numa revista, qual foi mesmo o lugar?
Ai meu deus, o negócio ta ficando grave!
Não lembro o lugar, nem porque me casei e nem porque estou de camisola na varanda e todos os amigos do meu filho estão tentando ver minha calcinha...
Seus moleques!
Respeitem-me!
Já passei dos... dos... mais de vinte! Ora!
E eu tenho que pensar em coisas boas!
Como poesias, sonetos de amor, pra não me estressar nesse dia lindo de meu santo aniversário!
Quero esquecer a idade hoje...
Ou pelo menos finjo que esqueço.
Assim como finjo que to nem aí que o Josivaldo e o Júnior nem lembrem que dia é hoje.
Grrr... que vontade de matar esses filhos de uma mãe!
Quando eu tinha vinte, Josivaldo me dava flor, bombom, cinema, noite de amor, tudo.
Agora já usou da minha vitalidade, já abusou da minha inocência... já... deixa pra lá.
Voltando às poesias...
Aquela de Drummond, lindíssima que um paquera meu lia ao pé d’ouvido...aquela que começava assim... é... hum... han... ui!
Não lembro mais!
Que horror!
Vou comprar peixe, urgente!
Peixe, camarão, caranguejo, siri, tatuí, tudo que vier do mar!
Esqueço de tudo menos dessa bendita idade que faço hoje!
Tenho que mentalizar energias boas.
Mentalize uma aura azul em torno do meu corpo bem longe do corpo de Josivaldo...
Mentalize energia boa e jovem para o meu aniversário...
Mentalize esse ronco que sai do quarto, lá no diabo a quatro!
Não adianta!
Tenho que me acostumar.
Já passei da casa dos vinte, estou numa nova era.
Chega de Tabus! Eu sou uma jovem!
Cheia de vida, saúde, tenho um futuro enorme pela frente!
É isso aí! Bola pra frente!
Vou sair, fazer compras, tomar sorvete... Light.
Ir ao cinema... A pé.
Afinal, tenho que perder as calorias que consumi ontem e que se alojaram nos meus culotes, nas minhas coxas, na minha bunda...
Argh!
Sai pra lá, Satanás amigo de Josivaldo!
Vou fazer tudo que eu mereço neste meu dia!
E ai de quem aparecer na minha frente na casa dos vinte e poucos anos!
Eu não vou pensar duas vezes,
Na hora de pedir pra trocar de lugar...

EX {Pensamentos da mulher paranóica moderna}

Eu acredito na amizade com ex-namorado.
Desde que ele more beeem longe, seja um pé-no-saco e que eu já tenha encontrado um novo amor.
Ou, melhor ainda, se quem acabou o namoro fui eu.
Sou a favor de que o EX se mude pra outra cidade, quando acabada a relação de amor.
Amor?
Se fosse amor nunca acabaria.
O melhor termo é paixão.
Paixão tão avassaladora, que quem cai do cavalo é a princesa.
E o princípe sai radiante...
Pronto pra dar carona em sua garupa pra qualquer uma!
Já que não dá pra mandar o EX pro espaço,que pelo menos não apareça na minha frente todo fim de semana.
E com aquela cara de nem-sei-o-quê!
A única leitura da sua expressão, grita na minha consciência: “Coitada”!
Consciência o caramba!
A minha consciência tava inconsciente quando eu amei esse, esse... esse coisa!
Esse destruidor de coração ambulante!
Aliás, não o amei!
Eu me apaixonei.
E caí do cavalo.
E quebrei a testa.
E fez um galo.
Mas acabou.
Tenho que buscar a paz interior.
Lá do fundo do meu interior.
Mas se aquele filho de uma mãe aparece no bar que eu freqüento com aquela “inha”...
Eu o mato!
Calma...
Respire fundo, mulher!
Procure a paz interior no fundo do seu interior.
Porque se não for tão fundo...
Vai dar em guerra!
Vamos começar tudo de novo:
Eu sou uma mulher com várias qualidades.
Só preciso encontrar um homem que as valorize.
É claro.
Porque com um defeituoso da cabeça,como o meu ex, não dá pé!
Bem, então o melhor a fazer é ter leveza ao lidar com essa situação.
O que não vai faltar, já que ele está com aquela magrela!
Ela passa fome, só pode!
Eu sou mais eu!
Tenho carne e a ginga da mulher brasileira.
Sou a melhor expressão do charme e a elegância.
E o que foi que ele viu nela?
O quê, meu Deus?
Deixa pra lá...
Ele é EX.
E EX é EX.
E pouco me importa com quem ele anda.
Ou faça.
Ou deixe de fazer.
O que importa é que eu sou uma mulher de visão.
Olho pro futuro!
E... Olha que gatinho que vem vindo em minha direção...
Esqueça tudo o que eu disse sobre príncipes!
Esse é o meu príncipe!
Não tenho dúvidas!
E vem alado e de acordo com os galopes do meu coração...
Quem se interessa pelo passado?
EX é Ex.
EX é Passado.
Pretérito mais-que-imperfeito do EX-subjuntivo.

Infância {Pensamentos da mulher paranóica moderna}

Sempre tive uma família grande.
Tão grande, que só nos encontrávamos nos almoços de domingo.
Todos os primos se juntavam para brincar, e disputávamos bola de gude, pega-pega e de escapar da mãe na hora do almoço.
Sempre na hora do almoço era a maior tortura.
Ai de quem não comesse tudo!
Não ganhava sobremesa, bola de futebol e nem o presente do Papai Noel.
Pra nós não contava a última opção.
Papai Noel nunca tinha chegado pela chaminé mesmo...
E nenhum de nós tinha chaminé.
Eu era uma menina muito tímida...
E apaixonada por um dos primos.
Ele fazia questão de mostrar a todos que também me amava...
Sempre puxava meu cabelo, me chamava de magrela e botava a culpa em mim pela vidraça quebrada.
A minha maior tristeza daquela época era os aniversários ‘grupais’.
Não sei se era costume da época ou inveja, mas todas as doze filhas da minha avó tiveram filhos numa mesma fornalha.
Por isso, os aniversários sempre eram de três ou mais primos ao mesmo tempo.
E com muitas brigas e sangue ao mesmo tempo.
AS brigas eram por causa do presente melhor que o outro ganhou, originando bofetadas ‘sem querer querendo’ uns nos outros.
Às vezes, algum era esquecido no aniversário, e logo era colocado em cima da cadeira pra cantar parabéns junto aos outros.
Os tios eram sempre um caso à parte.
Todos estavam assistindo, compenetrados, ao super jogo de domingo.
E a única coisa que eles conseguiam ver, fora o jogo, eram as latas de cerveja.
Sempre os aniversários eram aos domingos de futebol.
Deve ser daí a minha raiva deste dia da semana.
A nossa diversão de domingo era correr, correr, comer contra a vontade, correr da mãe, vomitar a comida que comemos contra a vontade, correr dos tamancos que voavam logo depois de termos sujado toda a sala...
Nossas mães debatiam sobre a atual conjuntura da novela das seis, tentando adivinhar com quem João Antônio terminaria no fim das contas.
E suspiravam por Tarcísio Meira...
Era tudo ótimo!
Sem preocupações com o que viria, a não ser com o tamanco que sempre vinha das mãos das nossas queridas mamães!
Agora, estou grávida do meu terceiro filho e participando de um almoço desses de domingo.
Todas as crianças estão brincando no terraço depois do almoço, e eu lembrando dessa época tão boa da minha vida...
-Juninho, volta aqui! Se não comer você não ganha presente de papai Noel!
Hum...
-E no meu tamanco, você acredita?
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