
Mariza era uma senhora viúva, sem filhos, netos ou qualquer outro parente por perto, só contava com sua empregada, Constanza, que a amava e cuidava com todo afinco. Mariza tinha perdido seu marido ainda jovem, no período da Segunda Guerra. Uma morte “por nada”, segundo ela.
A notícia havia chegado, com tamanha tristeza, pelos jornais e listas afixadas por todas as cidades do país. Algum jornal da época contava que o reconheceram pela aliança com a frase gravada: “Sempre Mariza”.
Antes de partir, o marido havia escrito uma longa carta de despedida, atolada de sentimento, saudades e decepções com os motivos de se existir e fazer parte de uma guerra civil e violenta. Por sorte ou vontade de Deus, a carta chegou após 30 anos, não se sabe o porquê da demora, mas chegou.
Constanza ao receber a tão esperada carta, teve medo do tamanho da emoção que poderia causar à patroa, já estipulando as reações provenientes da surpresa: de um simples desmaio a um ataque brusco no frágil coração de Mariza.
Constanza pensou, pensou e decidiu abrir a carta e corta-la em pedacinhos do tamanho de um parágrafo. Esses parágrafos seriam enviados como doses homeopáticas e seriam lidos diariamente até o último dia em que Mariza se encontrasse na terra e, então, atualizada, estaria preparada para encontrar o seu marido no céu.
Foto de Nazareno Andrade.