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quinta-feira, setembro 20, 2007

Livro - Parte VI


Ele saberia que qualquer coisa entre ar e dor, terminaria num andor sem fim que lhe consumia cada molécula expelida pelos seus poros cansados. A teimosia seria a virtude dos desesperados ou o desespero não passa de uma maldade própria e incrustada? Era bom pensar nesse instante e qualquer coisa que viesse à sua cabeça de vento era bem-vinda. " Ocupando o espaço vazio, pra não alimentar os maus pensamentos". Mas o melhor ainda era poder respirar o ar sem dor, poder ser ré sem ser menor, poder esquecer-se por um instante apenas, pra então ser livre em sua própria companhia.

Foto de Herval Freire

sexta-feira, setembro 14, 2007

Livro - Parte V



Mariza era uma senhora viúva, sem filhos, netos ou qualquer outro parente por perto, só contava com sua empregada, Constanza, que a amava e cuidava com todo afinco. Mariza tinha perdido seu marido ainda jovem, no período da Segunda Guerra. Uma morte “por nada”, segundo ela.
A notícia havia chegado, com tamanha tristeza, pelos jornais e listas afixadas por todas as cidades do país. Algum jornal da época contava que o reconheceram pela aliança com a frase gravada: “Sempre Mariza”.
Antes de partir, o marido havia escrito uma longa carta de despedida, atolada de sentimento, saudades e decepções com os motivos de se existir e fazer parte de uma guerra civil e violenta. Por sorte ou vontade de Deus, a carta chegou após 30 anos, não se sabe o porquê da demora, mas chegou.
Constanza ao receber a tão esperada carta, teve medo do tamanho da emoção que poderia causar à patroa, já estipulando as reações provenientes da surpresa: de um simples desmaio a um ataque brusco no frágil coração de Mariza.
Constanza pensou, pensou e decidiu abrir a carta e corta-la em pedacinhos do tamanho de um parágrafo. Esses parágrafos seriam enviados como doses homeopáticas e seriam lidos diariamente até o último dia em que Mariza se encontrasse na terra e, então, atualizada, estaria preparada para encontrar o seu marido no céu.

Foto de Nazareno Andrade.

quinta-feira, setembro 13, 2007

O livro - parte IV



Depois de não ter mais pra quem apelar e de ter tentado, com todas as forças, ter poderes mediúnicos, Rosa Cansada de Esperar parece que foi atendida pelas suas preces: Eis que aparece um gênio mágico, que saíra de uma das garrafas da venda de Seu Antônio.
Pois é, Seu Antônio havia jogado a garrafa com todo o seu ódio para bem longe dali, por se sentir enganado com uma garrafa vazia pela distribuidora. Não sabia ele que havia perdido um gênio, e, vejam só, um “gênio mágico”!
Mas hoje não era o dia de Seu Antônio, era o dia da Rosa Cansada de Esperar.
E, quando Rosa viu que era sua grande chance, e era única, pois o gênio tinha pressa pra sair dali, ela gritou:
- Uma bola de cristal, por favor!
Ninguém soube, até hoje, se ela foi atendida realmente. Mas, todos não vêem a hora de encontrar o tal “gênio mágico” para pedir exatamente o que a Rosa pediu.
Todos já estavam cansados de esperar.

Foto de Herval Freire

O livro - parte III



quando eu cheguei tudo estava virado.
minha cabeça, meus braços, minha boca, meus olhos procuravam
tua sombra.
ao lado da minha.
ou como se fosse, como eu queria.
procurava a única coisa que importa no porta-restante do meu peito:
um zum-zum que faz falta.
procurava a palavra segredada e calada num impulso
pelo beijo.
e, espreitando por cada brecha, a penumbra mostrou-me, agora, e de forma clara,
que a única falta - que faz falta tanta - é tua.
que a única presença - que me importa - é tua.
que a minha fala procura - ainda rouca - a tua.
e precisa de resposta, não mais eco.

Foto de Nazareno Andrade

O livro - parte II



Era pouco.
Queria mais.
E pedia como se não quisesse,
como se não pudesse,
como se não coubesse.
Mas cada canto tem seu espanto e o encanto daquele seu sorriso (de canto) era encantadoramente assustador.
E como chegava sem avisar, causava um susto risonho que fazia cócegas e causava náuseas.
Era meio não-sei-o-quê e era bom.
Ai ela pedia (de novo)
E (mais) uma vez.
Como se não quisesse, como se não pudesse, porque queria que coubesse.
(Em si).

Foto de Herval Freire

O livro - parte I


Aos que querem significados: que os esqueçam.
Existe muito mais no pouco de cada força, seja ela "auto" ou "ajuda". Existe muito no braço que colabora, na mão que recebe e nem sabe se há uma troca.
Veja só: uma pirâmide de mãos espalmadas valem mais que dez com as mesmas cerradas.
Aos que apenas escutam: ajam.
Pois, uma sentinela de humanidade vale mais que mil palavras desnorteadas.

Foto de Nazareno Andrade
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