Ela tinha 3 anos quando quis ser caixa. E nem era ser caixa de papelão, nem de banco, era de supermercado. Achava lindo todas aquelas mulheres fardadas, registrando freneticamente os produtos e donas do dinheiro. Aos 9, ela descobriu que queria ser bailarina, mas sua mãe disse que bailarina ganhava quase nada, a não ser que fosse pra dançar no balé de Barishnikov, coisa que, pra ela, era difícil até de escrever. Aos 11, descobriu que seu pai namorava, como um homem normal e já tinha até namorada, só não imaginava como um homem normal namorava. Ai ela teve raiva-ciúme-tomara-que-morra da primeira namorada que o pai teve, depois de separado. Aos 15, descobriu que pra beijar tinha que se enfiar a língua na boca do outro e dai em diante não tinha a mínima idéia de como continuaria. Aos 16, descobriu que o joelho não gostava tanto de vôlei quanto ela.Mudou de cidade e prestou vestibular pra engenharia civil, farmácia, direito, administração,psicologia, jornalismo e edificações. Destes 7, cursou 5 e formou-se em 2.Aos 27, ela lembrava que aos 3 queria ser caixa e descobriu, então, que o que gosta mesmo é de dinheiro, apesar dele não gostar dela. Ainda... Hoje, ela gosta de ver bailarinas do Barishnikov, de vôlei, de beijar muito, de correr ate sentir que o joelho não agüenta, de matemática - jamais de engenharia e de escrever. Mas morre de medo de quem se diz eclético.