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sexta-feira, fevereiro 29, 2008

[intervalo]

Passei a manhã toda lembrando de você. Lembrei que enquanto eu falava e você ria, eu perguntava, sem graça: "você está rindo de mim?", e você respondia: "não, estou rindo com você, eu nasci pra rir junto com você".

E eu que sou tão independente, aprendi a dizer "preciso de você".

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Tea for two hearts

Lorena Travassos e Raquel Medeiros

Num desses dias de lembrar, andei tentando separar em caixas as coisas que andaram entulhadas por toda uma vida. Caixas grandes, caixas pequenas, caixas de inutilezas, caixa de franquezas... Pois ser fraca não me é permitido, mesmo eu querendo me debulhar em lágrimas, mesmo eu me mostrando ao avesso e me contorcendo aos olhos de todos, ainda há quem diga que eu não sou dada a essas coisas.É que nunca fui escandalosa. Sou das que chora baixinho, no escuro e na solidão do quarto. Soluços abafados num travesseiro com cheiro de vazio.

Quando olho aquelas caixas - as minhas caixas, as caixas de mim – tento classificar as coisas que acumulei no meio do caminho. É preciso rasgar umas, queimar outras (para que não se juntem nunca!), e, ainda assim, há tantas outras que não sei o que fazer, em que caixa colocar.

Separar amor da amizade, separar um amor com amizade, mas como separar um amor que se tornou saudade? Como separar um amor, que nunca o foi na realidade?

Nessas horas eu queria uma caixa cheia de traças famintas.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

entre parênteses

Há duas medidas, ter e não ter.
Mas as duas taças que eu seguro estão cheias, esperando o tilintar que ainda ecoa dentro do peito.
Dizem que o vazio esta cheio de ar, mas o meu vazio transborda a ponto de completar o lado cheio de um peito saudoso.
Tem palavras que não conseguirei traduzir, pois ainda não sei como se diz visceral de uma forma tão visceral como se apresenta.
Tem cartas que nem sempre vou mandar. E é melhor assim, porque sempre haverão coisas que melhor serão ditas através de um olhar.
E podem até quebrar meus planos em pequenos cacos, que eu vou ter superbond pra deixar copiosamente à mostra os meus ombros largos.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Maria Flor no primeiro dia de escola

Maria Flor nasceu pequenininha e sem chorar uma só palavra. Recebeu esse nome da sua mãe para que a doçura de um mundo perdido se encontrasse nela. Tinha dedos pequenos e o hábito de falar só o necessário. É uma menina tímida que tem medo do mundo e por isso, ao ir à escola, apertava bem os cadernos contra o peito pra que ninguém visse - ou ouvisse - as fortes palpitações dela. Roía as unhas na hora do intervalo, o que parecia mais um intervalo sem fim de ruídos; de conversas em suas costas, de músicas e cordas de pular das brincadeiras que ela ainda não participava. Maria Flor roía as unhas, arrumava a farda e segurava o peito, pra tentar sossegar a fera lá dentro, esperando a sua hora aqui fora.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Anyway...

Eu abro um livro novo e parece que já conheço toda a história. As pessoas conversam comigo e eu quase completo as suas frases. As surpresas, que deveriam ser supresas, chegam em tom monótono e monocromático. Toda a rua que passo tem histórias que eu já ouvi uma, duas, três vezes. Até raspar a cabeça já parece uma coisa feita por mim em outra hora. E é assim que a vida vai passando: as mesmas pessoas, as mesmas fofocas, as mesmas babaquices e problemas. Enquanto fico aqui esperando por novos problemas, só que em outro país e com um sorriso no rosto, achei em um livro antigo mensagens que vieram a calhar:

" Debaixo da aparente estupidez, existe a estupidez verdadeira"
e
" ... ele foi o mais raro exemplo dos que dizem o que pensam e fazem o que dizem."

Galeano sabe o que diz.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

entre as linhas

... eu só queria dizer que eu ainda gosto daquela nossa cena onde as pernas eram quatro, e eram suadas, entrelaçadas, só não mais cínicas do que o imaginado, pois não era um filme de Buñel.

textos embaixo do tapete

Beth andou pensando tanto, que tinha textos inteiros jogados embaixo do tapete. "Esse negócio de pensar deve me levar em algum canto" - ela falava alto e isso ecoavada dentro dela. Não que Beth seja vazia,o contrário disso: ela era cheia de palavras bonitas, porém, palavras guardadas, esperando a hora certa que deveria estar combinada com um sorvete de abacaxi e a lua no quarto crescente, meio minguante.
Quando menina, juntava tudo numa caixinha, porém agora, até a fumaça do seu cigarro exalava poesia. Até as curvas da sua silhueta eram haikais. Até o seu silêncio eram sonetos eternos de Fernando Pessoa, e às vezes, até letras cortantes de Ana Cristina César.
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