Lorena Travassos e Raquel MedeirosNum desses dias de lembrar, andei tentando separar em caixas as coisas que andaram entulhadas por toda uma vida. Caixas grandes, caixas pequenas, caixas de inutilezas, caixa de franquezas... Pois ser fraca não me é permitido, mesmo eu querendo me debulhar em lágrimas, mesmo eu me mostrando ao avesso e me contorcendo aos olhos de todos, ainda há quem diga que eu não sou dada a essas coisas.É que nunca fui escandalosa. Sou das que chora baixinho, no escuro e na solidão do quarto. Soluços abafados num travesseiro com cheiro de vazio.
Quando olho aquelas caixas - as minhas caixas, as caixas de mim – tento classificar as coisas que acumulei no meio do caminho. É preciso rasgar umas, queimar outras (para que não se juntem nunca!), e, ainda assim, há tantas outras que não sei o que fazer, em que caixa colocar.
Separar amor da amizade, separar um amor com amizade, mas como separar um amor que se tornou saudade? Como separar um amor, que nunca o foi na realidade?
Nessas horas eu queria uma caixa cheia de traças famintas.