Site Meter

terça-feira, abril 08, 2008

Meu colchão

Nessa hora de cuidar do futuro e dos milhares de documentos e vistos, andei revirando, distribuindo e pensando em vender minhas coisas todas de uma vida.
São coisas de uma vida porque as tenho desde o meu primeiro apartamento, e, posso dizer que eu tinha tudo o que eu precisava dentro do meu muquifinho.
E fazendo uma das milhares de listas pra distribuição brasileira Herbert Richards, eu parei sentada em frente ao meu colchão: Esse objeto de espuma altamente inflamável foi o que me trouxe a maior das nostalgias já vividas na face da terra.
O meu colchão foi a primeira coisa do meu primeiro apartamento. E foi a única coisa única que tenho até hoje, depois de 5 anos morando só. Foram amigos, namorados, namoridos, família, gente que nunca vi, todos estavam ali, sentados ou deitados no meu colchão.
No início o colchão ficava no chão, pra que qualquer um vinhesse e sentasse enquanto se jogava conversa fora, depois migrou pro quarto e ficava indo e vindo de acordo com a necessidade.
No meu colchão tem marcas de vinho, de comida, de ferro quente, de coração despedaçado, de palavras tristes, de sorrisos eternos, de uma mente alcoolica sem lembranças, de um abraço terno, de fins, de recomeços, de uma vida sozinha porém cheia de esperança e da idéia de não desistir nunca.
Do meu colchão eu tive as idéias mais loucas, as juras de amor mais eternas, o roteiro do filme da minha vida, doação total e completa, as tristezas mais recolhidas e as divididas com uma, duas ou mais pessoas. Tive também a vontade de ter filhos e a de ficar sozinha. Tive a vontade de não voltar mais e de permanecer pra sempre, até a fome apertar ou o entregador de comida chegar.
E agora olho pro meu colchão e a vontade é de levá-lo comigo no avião, amarrado em cima com uma corda, como fazem os retirantes lá da minha terra. Ou de deixar guardado pra num dia desses de ter saudade de tudo e de nada, voltar e ficar sentada olhando pra ele como se um filme bonito de época (maravilhoso)passasse.
Mas como todos os filmes acabam, eu tenho que ir e recomeçar tudo outra vez.
E já começo a ter saudade de tudo isso.

6 comentários:

Anónimo disse...

partir é morrer um pouco..
(morrer é partir demais!)
..
Lo, a gente precisa de simbologia, né? deixar o colchão é partir pra a vida nova! não é deixar tudo pra trás, que isso é praticamente impossível, mas é começar de novo com um enorme espaço a ser preenchido pelas novidades todas que virão!
Deixa esse colchão levando saudades, mas deixa sem dó!

Anónimo disse...

mas que isso me lembrou 'o portão', ah, isso lembrou. e agora, quem sabe, 'a montanha', hehehe

Lorena Travassos disse...

mais uma veeez, obrigado senhor por esse diaaa

raquel medeiros disse...

fazia tempo que não vinha aqui, e sempre me emociono...
parece que consigo ver seus olhinhos pequenos percorrendo cada detalhe, mancha, marca, mágoa...
mas (liu?) está coberta de razão... a gente precisa seguir adiante ( e avante!). nossos sonhos são urgentes demais pra esperarem sentados no colchão.

um abraço de cobertor quentinho.
=*

Helio Lambais disse...

Nossa.... perfeito!!!
É um texto totalmente seu que, no fundo, pertence a outros tantos que vivem este mesmo "amor" com o colchão!

Bjus

Mirna Nóbrega disse...

saudade das palavras...
saudade da sua poesia.

eXTReMe Tracker